Michel Fonseca | Mídias Sociais

Escrevendo para audaciosamente ir onde nenhum blogueiro jamais esteve. ;)

“Mimimismo” e polêmica barata no caso Arezzo

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Não preciso relatar o caso mais recente da Arezzo. Creio você saiba do que se trata. Vamos direto à minha crítica. Assim como a Arezzo, não vou me enfiar numa discussão ideológica. Só quero compartilhar uma reflexão pessoal, baseada em impressões que tive enquanto tentava analisar o caso com base em uma ótica mercadológica e comercial, além de usar uma pitada de relacionamento com o público.

Segundo Anderson Birman, presidente da Arezzo, toda a matéria prima utilizada na coleção Pelemania é “absolutamente legalizada, com certificado de origem, com certificado de regularidade, tudo dentro do que os parâmetros de sustentabilidade permitem”.

Leia a entrevista completa de Anderson Birman, Presidente da Arezzo, no Cidade Marketing.

A Arezzo sempre usou couro em suas peças. Tanto de bovinos quanto de ovinos. Em um dado momento, por ter produzido e comercializado um lote de peças contendo pele de raposa na composição, se tornou alvo de críticas de ambientalistas digitais. Até aí, tudo bem. Todos sabem que uma das principais atividades das ONGs é reinvindicar direitos. Neste caso, direito dos animais à vida. Por outro lado, tenho visto inúmeras críticas agressivas e boicotes à marca. Coisas do tipo “Eu era cliente Arezzo, mas agora vou queimar todas os sapatos que comprei lá”.

Não dá pra negar a importância da revolução que a atividade do público na fanpage da Arezzo ocasionou. Sem esse ambiente virtual, criado para que a marca reúna admiradores e tenha contato direto e imediato com seu público, a empresa não teria redefinido seu posicionamento com tanta agilidade; em cerca de uma ou duas semanas, a coleção Pelemania foi retirada das vitrines e um comunicado oficial da Arezzo foi publicado na mesma fanpage que serviu de palco para as críticas.

A Arezzo seguiu um direcionamento que é evidente em qualquer revista de moda que se preze. Uma marca que se propõe a conceber e apresentar produtos baseados nas principais referências mundiais não deveria fazer isso? Por que a Arezzo, que sempre utilizou pele de boi e ovelhas, não iria usar pele de raposa, criada em cativeiro para este devido fim (assim como as vacas e ovelhas ali presentes)? Certo… ninguém come raposa. Porém, não ache que o couro do bovino do seu sapato saiu direto do açogue pra fábrica de calçados. Mas isso é uma questão ideológica, que me propus a não discutir aqui.

Não acho que o consumo de pele seja sensato em nossa realidade. Por motivos diversos, que não devem ser citados neste post. Mas ninguém tira da minha cabeça que a reação do público foi uma tempestade num copo d’água. Um mimimismo sem tamanho, que tomou embalo e virou febre.Vamos xingar muito no Facebook da Arezzo!”. E todos foram. Criticaram e geraram um resultado plausível (a retirada das peças da coleção). Não satisfeitos, continuam criticando a atitude da marca, como se utilizar couro de bois e ovelhas e comê-los durante o almoço não fosse uma causa tão relevante e passível de manifestações quanto a utilização do couro de raposas em artigos de moda.

Não acredito que o valor da marca e as estatísticas de consumo vão cair. Pelo menos não por muito tempo. Porque temos memória curta demais. Nada que um bom mercadólogo experiente em gerenciamento de crises não resolva. Quando a marca começar a produzir peças de lona de caminhão, pneus reciclados, garrafa pet e afins, aí, sim, perderá seu público consumidor fiel.

Aplaudo empresas que ousam, sem medo de serem felizes. E aplaudo de pé quem admite que errou e volta atrás. Como Anderson Birman falou em outra entrevista:

” Não pretendemos repetir essa experiência. Percebemos que, apesar de nossos produtos estarem dentro da lei, cumprirem todas as exigências, as pessoas não aceitaram bem a ideia para a nova coleção. O volume de peças de peles exóticas é insignificante quando comparado ao número de toda a coleção, porém, mesmo assim a confusão foi grande. É um assunto que gostaria de deixar para trás.” (Entrevista na íntegra)

Fica a dica pro pessoal: reclamem mais, critiquem mais, mas sejam sensatos. Não ataquem apenas quem está em evidência, porque o que a Arezzo fez foi legal (no sentido de lei), mas o que tem de empresa fazendo coisa pior por aí, não tá no gibi. Vamos criar atitudes novas, ao invés de copiar as que vemos no Twitter do coleguinha! 😉

Esse post tem um pouco de desabafo, de revolta, de insatisfação, de reflexão e, principalmente, de compreensão com a Arezzo. Dia das mães tá chegando e é lá mesmo que vou comprar o presente da minha. Porque não é uma coleção atual, baseada nas principais tendências e que utiliza matéria prima legal que vai destruir a minha admiração pela Arezzo.

Se não concorda, pode xingar muito nos comentários abaixo.

Leia também: Como gerenciar crises de imagens em redes sociais

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Written by Michel Fonseca

19/04/2011 às 14:58

Publicado em Geral

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4 Respostas

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  1. Logo que a Arezzo lançou a coleção, pensei da mesma forma que aqueles que criticaram. Achei um erro, algo que eles realmente não deveriam ter feito.

    Mas seu post me fez ver a situação de outra maneira, muito mais inteligente e plausível. O consumidor, de fato, deve ser mais sensato. Refletir mais sobre o que diz, o que discute, o que comenta. E no final das contas, a Arezzo se saiu muito bem. Mostrou ser uma marca digna e reconheceu o ‘erro’.

    Parabéns pela reflexão!

    henriqueathayde

    19/04/2011 at 15:15

  2. Mi, eu concordo contigo, acho que a gente conseguiu bater um papo rápido sobre as questões que envolveram o fato, que aqui algumas serão comentadas aqui, e outras não, como você mesmo disse.

    Reitero o fato de que, a Arezzo deu um passo ousado e que de fato não foi feliz. Mas foi sim muito feliz em admitir o erro e se retratar, na medida do possivel. Sim, porque pra mim argumentar com um “não sei porque tanto alarde mas tudo bem, eu vou consertar” pra mim é pífio. A Arezzo, na minha opinião, uma empresa como esta não pode se eximir deste conhecimento, vez que seus produtos participam, indiretamente, dessas discussões. Aí é feio, não dá pra uma empresa como ela simplesmente “lavar as mãos” sobre o assunto. Se quer fazer uso de materiais que podem vir a gerar polêmica, tem que estar muito bem preparado pra aguentar a rebordosa. Ok, tomaram as medidas cabíveis, mas agir como se não soubesse de onde veio o tiro na minha opinião é leviano. E desculpe a dureza, mas a marca não pode nunca, jamais, em tempo algum, se mostrar alheia a essas discussões. Ou então não usa couro animal em suas peças, e pode “alheiar” à vontade, entende o meu ponto?
    É claro que vai aparecer gente fazendo mimimismo. É a acefalia do povo, os haters sem noção que potencializam à décima uma questão que pode ser muito bem resolvida de uma forma mais madura.
    E da mesma forma que a massa é acéfala e exagera na reação, loguinho vai se esquecer do ocorrido também.

    Essa gente temos que ignorar, pois são casos perdidos. Eu vi muitos blogs se posicionando contra a Arezzo de forma tão leviana… Totalmente haterfeelings, sabe? E querendo ou não, são formadores de opinião também, né? Cuidado… É uma pena a falta de reflexão imperar, ao invés de aproveitar o gancho pra fazer um reflexão ponderada sobre o assunto, para que possamos ter posicionamentos maduros. Que foi o que você propôs aqui e que é louvável, importante, tá de parabéns! 🙂

    Agora, minha reflexão sobre o assunto concluiu que, embora ainda exista um público adorador de peles de animais, acho que é um público que aos poucos está declinando, reduzindo, até mesmo por conta dos “couros sintéticos”. Óbvio que as pessoas do mundo todo não vão virar macrobióticas, né? Mas é um processo de conscientização, e que, como eu disse do FB ontem, tem respaldo até de grandes marcas como D&G e Chanel, não só da PETA.

    Sou a favor de polêmica sim, mas da bem cara!!! rs

    Beijo, Mi!

    Cacau

    19/04/2011 at 16:12

  3. […] da Arezzo, com as mais diversas opiniões e com textos ótimos. Entre eles, posso citar, o de Michel Fonseca, o do Trend Coffe e o do Esse Tal Meio […]

  4. Estou passando aqui para mantê-lo ciente de que seu post foi muito bem redigido, desde sua formatação ao seu conteúdo e coerência. Segue, inclusive, a linha de posts em blogs que facilmente me puxam a ler algo relativamente grande na tela do computador.

    Aproveito o assunto para expressar minha opinião:

    Até hoje nenhuma balbúrdia veganista conseguiu sair do contexto ideológico conceitual pseudo-crítico, de forma a se basear em explicações mais pragmáticas, coerentes e conscientes. E esta balbúrdia ocorrerá em grande quantidade enquanto durar esta era consumista de hipocrisia, contradição ideológica e atribuições incoerentes da própria identidade – inclusive, porque este fato é a causa do primeiro. Numa sociedade em que fantasiar a própria identidade através da utilização de palavras ou produtos está em plena aceitação popular, justamente por ser muito mais fácil do que atribuir o perfil desejado à prática real do mesmo, é evidente que esse tipo de polêmica aconteceria e, pode ter certeza, continuará a acontecer por muito tempo – até que, de forma gradual, a partir de uma boa e específica educação psicológica, o ser humano passe a visualizar a identidade do outro pelos seus atos e não por sua oratória (seja ela auditiva ou visual).

    Resumindo em 140 caracteres tweetianos e superficiais:
    – Enquanto a preguiça ousar falarmos da boca pra fora, viveremos de muitas caras para pouco pau.

    freitaz

    21/04/2011 at 15:40


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